quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Angústia.

Um dia me olhei no espelho e percebi que o tempo havia me traído. No meu rosto o que eram só linhas de expressão fizeram o caminhar de uma vida. Nos meus lábios nenhum sorriso pueril, somente um gosto seco deixado pela poeira do tempo. Nos olhos já não vejo a esperança de uma vida pela frente, já não vejo nada. Meu corpo apodrece e o cheiro da morte está impregnado nos arredores do meu quarto.  Eles me conheceram por vários nomes, ontem era inspiração e hoje sou angústia. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Lobo.

Ninguém é um só indivíduo. Há várias partes diferentes que representam uma mesma pessoa, tal como a visão de um caleidoscópio. A vida real não se resume no maquineísmo, nos antônimos. As emoções podem se misturar num degradê, assim como características da personalidade. O tempo fez com que meu reflexo no espelho fosse se fragmentando em mil pedaços e cada um desses reflexos, tão diferentes e distorcidos também fossem uma parte de mim. A dificuldade é lidar com personalidades que às vezes eu mal conheço. Por outro lado, umas eu conheço bem...

Eu sou o olhar fixo e brilhante desses seus olhos vermelhos. Eu sou o corte profundo que encena um sorriso nesses seus lábios. Eu sou a risada amaldiçoada que perturba o ouvido dos sãos. Eu sou o sangue que banha o seu rosto e te prepara para a guerra. Eu sou a raiva dentro de você. Agora, você... 

Você se afasta, se contorce, sente. Sente como todo recipiente cheio de emoções que é o ser humano: confuso, quebrado, doce, ácido e, por fim, solitário. Vejo como seus pensamentos se misturam no calar da noite e o quanto é difícil dormir no calor da noite. Eu observo tudo, porque também sou parte disso... E acho graça.

Não me olhe nos olhos.

Não me olhe nos olhos, eu não quero que você os veja brilhar. Vesti o terno preto mais bonito, escolhi as cores do vilão. Manipulei a todos como marionetes usando as minhas próprias mãos. Montei todo um cenário pra não fazer papelão, aos poucos me aproximei de você, mirei devagar no meio do seu peito que era pra não errar não. Noite após noite planejei, dominei o acaso como se fosse só mais um peão desse jogo de amor. Escondi os meus sentimentos como reféns atrás das paredes de pedra desse labirinto decadente que chamam de coração. 

De nada adiantou, estou confuso agora.

Lancei os dados e perdi a aposta. Mas, na verdade, esse é um jogo em que desde o começo já sabia que não poderia ganhar, sempre fui carta fora do baralho. Quando vi, era tarde demais. Você achou as quebras do meu coração, derrubou as paredes do meu labirinto e libertou meus sentimentos. Foi terremoto derrubando as peças do tabuleiro. Rasguei os planos, mas nem assim fui dormir. Fui brincar de arco e flecha sem saber que você era amazona e agora quero te afastar. Você me convenceu a derrubar todo cenário, cortar os fios das marionetes. Ignorou meu terno preto e desmascarou essa minha pose de vilão. Não me olhe nos olhos, eu não quero que você os veja chorar.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Agora eu tô puto.

Ele sente saudade de espalhar seus sentimentos pela folha de papel. Costumava escrever com traço forte e preciso a extensão de seus sentimentos, que tomavam contornos conforme a tinta era derramada no papel. Hoje já não sabe dizer se todas as  canetas de casa secaram, se as folhas de papel deixadas na mesa do quarto voaram pela janela aberta ou se o problema é a falta de sentir. Talvez o problema todo seja mesmo ele.
Isso mesmo, você que saiu derramando seus sentimentos no papel, que largou a janela aberta torcendo pra que tudo sumisse e viu as canetas sumindo sem se importar com reposição. Não se sinta culpado.  Eu o conheço, sei o que te deixa mais aflito. É lidar com a banalidade desses problemas, não é? É sua rotina, seu vício, querer eternizar seus sentimentos, por mais conflitantes e passageiros para logo depois querer que eles nunca tivessem existido, não consegue fazer história na vida das pessoas, mas almeja ser parte da história do mundo. Irônico, não?
Usa do teu conhecimento, rapaz! Não espera platéia pra te amar, vai por aí ver o sol nascer. Renova teus sentimentos e tuas mágoas, pega teus papéis e faz confete, faz das canetas seca um par de baquetas, esbanja teus sentimentos por aí e, principalmente, esquece. Esquece de verdade, larga essa encenação de bem-me-quer-mau-me-quer, como disse Domenico: te convidei pro samba, te convidei pro samba e você não veio.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Deep Blue.

Não há nada pior do que o medo de errar. É como uma brisa fria que arrepia, faz o corpo estremecer. Um riso nervoso aparecer. O professor falou que aqui pode errar, mas foi só em pensar nessa possibilidade pro rosto corar. Ele pensou não sei errar, prefiro me calar. Mesmo assim, se deu conta, não sabia. A verdade era que a resposta lhe fugia. Um caso tanto bobo, voltou pra casa abalado. Lembrou daquela vez em que deu tudo errado, confie em si mesmo foi o conselho dado. Escorregou pela parede enquanto pensava no caso, a chuva caía e o molhava. Sentou na varanda na esperança de ter a alma lavada. Não se sabe se é fruto da vida levada, não se sabe se é preocupação exagerada. O desgaste o marcava. Nada lhe inspirava.
Nem vou falar da solidão que o abraçava, tal como o vento que com a chuva soprava. Tentou lembrar de alguém em quem confiar, mas já não lembrava ao certo se havia abandonado os amigos ou se estes o haviam abandonado. Pensou em recorrer ao amor, mas é um sentimento que jaz enterrado. É estranho, às vezes, viver tão isolado, se acostumar a confabular consigo mesmo o que deu errado. Não estava sozinho, no meio da tempestade, no meio de sua ilusão, com deus e o diabo conversava. Procurou as estrelas, procurou divindades, entre o sons do trovão e o relâmpago com toda sua claridade perseguia a resposta do que a vida lhe guardava e o que ela significava. Descobriu-se humano afinal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Mal do século.

Ele a encontrou em um desses becos obscuros da internet. Linda, disse, e por uma necessidade de autossuficiência foi puxar assunto pelo motivo errado, queria alguém o enfeitiçasse. Ela tinha perdido um amor, ele tinha perdido o amar e só queria conversar pra agradar. De um jeito torto, tudo começou. Fizeram um acordo que só faz rir os amargurados, pego o avião chego no dia dos namorados, vamos fazer troça de todo casal apaixonado e nos divertir por um dia. Esqueceram que a vida é uma terrível ironia, os dois se encontraram, as mãos se encontraram. Ele pediu mil beijos que por outro foram recusados, mas acabou recebendo dela o amor que nunca havia achado. Foi aí que se deu o caso, e digo mais, se virasse música, Eduardo e Mônica ficariam invejados. 

Ele se mostrou um tanto quanto complicado. Vocês, com certeza, já encontraram alguém assim, não é?! Cara de pau, coração de pedra, mais de dez pontos pelo corpo desajeitado. Era um experimento de Frankenstein que na mistura de seus relacionamentos fracassados deixou os sentimentos pra trás. Mas eu não vou negar, no primeiro momento, a felicidade inundava o ar. Ele se apaixonou, mas pediu desculpas em vão por não saber abrir mão da própria solidão. Mas ela nunca desistiu. Com a cabeça deitada em seu peito, ela chorou. Chorou como quem crê no ditado de que água mole e pedra dura, tanto bate até que fura. Era amor demais, ele jogou fora, não cuidou, vociferou: me deixa em paz, não volto mais!

Não há termo que defina essa confusão, onde o teatro imita a vida, a vida imita a arte, a arte vira canção, são ciclos e ciclos e ciclos num carrossel de emoção. Ela disse, não te preocupas, vou embora, notícias minhas viram. Não se sabe se era mesmo de pedra aquele coração, se era dele ou não, se quebrado, por fim, não batia ou se retirado do peito e guardado à sete chaves batia em vão. Ele, egoísta, não via o efeito das lágrimas dela, pois nunca viu um coração doce e são. As dele sentiu, um ácido que queimava até o pulmão, não deixa que minha maldade te contagie não. Foi com terror que olhou seu corpo e percebeu o coração dilacerado, mas não soube dizer, desculpa, meu amor. Das coisas que me deixam assustado, não são as promessas quebradas, as palavras jogadas e o orgulho que o impede de pedir perdão. É o tempo, o tempo que passaram juntos, onde foi feliz e mesmo assim não soube largar a tão costumeira solidão. As sete chaves que não te dei do meu coração, o momento que perdido em que não houver ninguém pra responder: beijo, minha menina, e só restar a solidão. 

sábado, 19 de abril de 2014

Fábulas.

Acordou. No seu rosto, a luz do quarto ofuscava a visão e uma estranha sensação de secura dominava a boca. Por algum motivo permaneceu extasiado olhando aquela luz, que, apesar de nada ter de extraordinária, promovia um efeito tal como a luz do sol, de ofuscar e atrair. Levantou. Manchas pretas agora permaneciam em sua visão. Piscou repetidas vezes, mas continuava vendo os fantasmas dos objetos a sua frente, como num filme em câmera lenta. Apenas ignorou, por hábito sabia que a visão simplesmente voltaria ao normal. Todas as outras luzes da casa estavam apagadas, estava sozinho como sempre. Rumou à cozinha em busca de água. 

A cozinha era pura escuridão e ele se perdia entre pensamentos nebulosos, exceto pelas memórias da infância que agora lhe vinham e a luz da geladeira vazia que iluminava seu rosto. Aos cinco era aficionado pelo Lobo Mau. Mais do que medo, o respeitava. Queria ter o poder do sopro capaz de gerar vendavais, os dentes ferozes, os olhos aguçados, o faro preciso. Perdeu a conta dos sonhos em que o Lobo o encontrava a noite, perto da janela ao final de sua cozinha e lhe passava seus ensinamentos e poderes bestiais.

Hoje, a cozinha já não lhe era mais interessante, sabia que seu Lobo sequer existia. Não esperava encontrar ninguém lá. E é disso que tinha medo. Tinha medo  da obscuridade de seus recentes sonhos, que mostravam na janela da varanda o caminho para o fim. Sim, isso mesmo. Uma porta que lhe chamava, um caminho promissor, a fuga do caos. Por sorte, lembrava que até mesmo nos sonhos, tudo isso não passava de uma armadilha e acordava sempre de sobressaltado ao sentir o  impacto do corpo ao pousar violentamente no chão. 

De volta ao quarto após se alimentar. Tudo tranquilo, calmaria. Ligou o computador, dava início à sua rotina. Abriu seu perfil naquela famosa rede social, viu as atualizações recentes e um arrepio percorreu sua espinha. Perdido entre os devaneios, não viu o mais sorrateiro dos golpes. Era uma foto dela. Ela usava aquela maquiagem azul e seu batom vermelho, o que ele sempre achou que a deixava levemente ridícula. Ele riu, mas não dela. Riu de si mesmo. Riu da lembrança dos dois juntos e de todas as mentiras que ouviu, riu de acreditar nela com a mesma esperança inabalável de quem espera um dia se tornar amigo do Lobo Mau.

Resolveu por bem desligar a máquina. E, talvez tenha sido a culpa de um sopro do vento do norte, resolveu pegar o caderno e a câmera, arrumou as malas, partiu. Foi conhecer o mundo, coletava as histórias daqueles que conhecia por aí e as escrevia em seu caderno. No começo, achava tudo aquilo ridículo, infantil, como qualquer diário adolescente, mas não parou. O tempo passou, os contos se acumularam em seus vários cadernos que viriam com os anos e o sonho infantil se realizou. Tinha um poder tão maior quanto o do famoso Lobo, o de contar histórias.  

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Catatonia.

A penúltima vez que o vi parecia abalado, o que está acontecendo, a velha e tradicional pergunta do tudo bem. Não disse que sim nem que não, respondeu que não estava acontecendo nada e na época, não notei o que quis dizer. Esse era o problema. Uma vida sem novidades, os dias passando sem nenhuma distinção,  o tédio mortal inspirado em plenos pulmões. Não se sabe exatamente quando as coisas perderam seu encanto para ele. Os vizinhos disseram que começou a ficar ansioso, preso na sua angústia atrás de algo que provocasse mudanças na vida que nem percebeu enquanto elas aconteciam de verdade.

Parou de dormir, esperava ansiosamente o evento que iria revolucionar a sua vida. Era nesta noite, com certeza, nesta noite, e assim foi noite após noite. Até desenvolveu o hábito de dormir dia sim e dia não. Do hábito, fez-se o costume. Mas, para ele, nada mudou. Nada. Dois dias se fundiam em apenas um só, um dia interminável onde o nada reinava. O desânimo o levou a abraçar o ócio. Às vezes por falta de vontade, às vezes por cansaço, ele se entregava a procrastinação. Dormia apenas quando o cansaço vencia completamente o seu corpo há muito sustentado por cafeína e guaraná em pó. Mas nem todos os dias eram assim. Havia dias que o contrário acontecia e de tão cansado, não percebia se estava acordado ou dormia. Às vezes sonhava, muitas outras apenas sonhava acordado. Já não sabia mais se sonhava ou não nem possuía a noção de passar dos dias, uma impressão constante de ter se perdido no país das maravilhas tal como Alice. Tudo foi se tornando mais frequente. Sonhava, acordava, percebia novamente estar sonhando. Uma, duas ou, até mesmo, três vezes, até voltar a realidade, mas ainda incapaz de definir o ponto que separava a realidade do sonho.

Faz uma semana desda última vez que o vi, meu corpo ainda dói por causa das agressões. É perversamente irônico tê-lo visto assim mudado. Quando tudo começou, ninguém percebeu o que se passava com ele, os assumiram ser apenas mais uma manifestação do traço excêntrico de sua personalidade, ou, pelo menos, é o que todos diziam, até que ele, inexplicavelmente, resolveu adotar um mutismo eletivo. Gradualmente, parou de falar com os amigos, inclusive eu, depois largou a namorada e, ultimamente, disseram os porteiros do prédio que já nem mais cumprimentava ninguém. Nosso encontro se deu por acaso, passava por mim na rua e a princípio, não o reconheci. O que me chamou atenção mesmo foi o fato de andar pela rua de cabeça baixa, mexendo as mãos e argumentando consigo mesmo como se ali não houvesse ninguém. Foi então que o reconheci e chamei seu nome. Ele ignorou. Então gritei seu nome, perguntei se estava tudo bem. O rosto se desfigurou como se eu o tivesse insultado. Tudo bem, tudo bem, tudo bem. Foi então que me empurrou e eu não tive reação, tropecei e cai. Rapidamente, com a gola da minha camisa nas mãos, me segurou e me socou sem que eu tivesse tempo de reagir. Foi tudo muito confuso, em um momento havia a polícia ali. Nada fiz, mas soube por um telefonema que hoje ele está sendo internado. Catatonia.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Todo furacão tem o nome de uma mulher.

Ele a viu. Uma miragem viva. Aproximava-se com um sorriso doce e carregava agora consigo o que ele havia deixado. Um misto de emoções e também de memórias: aquela peça de roupa que ficou pra trás, aquilo que lhe trazia paz e o abandono. Ela sorria. Aquela felicidade estampada no rosto dela parecia lhe ferir. Uma sensação estranha invadiu seu corpo, fez cada poro arrepio e, tal como um temporal em plena sexta-feira, o rosto fechado numa máscara imparcial e o coração jogado em um abismo. Uma parede invisível espontaneamente surgiu entre o seu descontentamento e a aparente alegria dela, tão perfeita e inabalável que não se comparava nem mesmo ao melhor dos mímicos. Barreira tão tênue e tão forte, parecia quase se materializar solidificando não só a distância que ele impunha entre eles, como também, e principalmente, mantê-la distante para que ela não visse o que havia dentro dele.

Não permitiu a ela ouvir sua voz trêmula, nem ver a água que perigava se acumular até cair de suas pálpebras. Ela tentou se aproximar. A ameaça de beijos e abraços, fez ele instintivamente recuar. Não queria lembrar de como um dia foi bom. Em sua mente, os meses sem se falar, um aniversário esquecido, a tristeza e a saudade contínua... Não por preocupação, mas, por mera educação, ela perguntou, está tudo bem? Ele disse sim. A barreira trincou. Um estalo ressoou, sentiu o atordoamento de quem coloca o dedo na ferida. A resposta era óbvia e a mentira mais descarada ainda. Esqueceu do amor, como um anjo perverso, queria que ela sentisse a mesma dor. Deu meia volta e se foi sem nem dizer adeus. E de tudo que havia ali, só sobrou uma sacola e dentro dela um coração esfarrapado de tanto bem-me-quer-mau-me-quer. Chegou em casa se sentindo duplamente pior.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Ornitofilia.

O som estrépito preenche o cômodo dividindo espaço com a costumeira música alta. Ele, transtornado, acorda com a pertubação do equilíbrio do ambiente em que dormia, ignorando agora que o celular havia parado de tocar. Tal como toda noite, não se lembra em que ponto suas pálpebras sucumbiram. E, também, tal como toda noite, sentiu-se quente, febril, confortava na cama o corpo que abrigava o peso de um dia inteiro. A sensação seguinte era sempre apenas uma, perceber-se acordado novamente com o corpo suado e a respiração ofegante, um nó na garganta e o enjoo matinal que o fazia vomitar na hora de escovar os dentes.  Após minutos de mal estar e semiconsciência finalmente juntou forças para despertar e, como era de praxe, as náuseas o impediam de comer algo, limitou-se a preparar uma bebida refrescante, a qual apelidou de elixir da vida, um coquetel de coca-cola e antidepressivos.

Fez-se ouvir novamente aquela sinfonia tão irritante que foi capaz de acordá-lo. Ele pega o celular e confere o que se esforçava para esquecer, o corpo celeste em que habitamos havia completado mais uma translação desde o fático dia que marcara a sua medíocre promanação. Daqueles os quais compartilhavam a mesma árdua marca temporal que tanto delimitava seu ser, ou seja, de todos, surgiam as mais variadas formas de lidar com o execrável envelhecimento do corpo. Os mais velhos sempre animados e solícitos o parabenizavam e o elogiavam excessivamente principalmente aqueles os quais ele não mantinha contato algum, o que, veremos, sensibilizava o seu inerente sarcasmo, chamavam-o de bom garoto.

Eis que abro um parêntesis, pois bom garoto ou também Sweet Jesus foram exatamente os nomes que usava para designar um antigo dispositivo com a cabeça de um personagem que ao ser puxada liberava uma pastilha, uma bala. No caso, o personagem era uma ave amarela chamada Woodstock que pertencia ao desenho do Snoopy e é claro que havia muito que as balas se esgotaram e já não faziam parte do conteúdo do recipiente. Muito embora, o novo conteúdo ainda fosse apelidado de forma alusiva. Uma vez, indaguei-o de onde havia tirado o nome Sweet Jesus e, então, ele, cerimoniosamente, pegou o recipiente e posicionou-o acima da palma da minha mão esquerda, vi o bico de Woodstock abrir-se num sorriso e uma pastilha escorregar da boca do personagem para minha mão. Com a pastilha em minha mão, ele a fechou e disse maravilhado que tão logo isso dissolvesse em minha boca, eu esqueceria todos os meus pecados e me sentiria perto do céu, a ponto de poder sentir e tocar as nuvens e as estrelas. Aquele dia, eu havia encontrado uma nova religião.